Por que vale a pena ir ao fisl9.0?
O relato abaixo é de João Paulo Francisconi e foi postado na comunidade do fisl no Orkut. É um relato divertido e sincero. A leitura vale a pena e mostra um pouco do espírito heterogêneo que torna o fisl um evento singular.
Quando tive a oportunidade de embarcar para o Fórum Internacional de Software Livre, confesso que fiquei um pouco apreensivo quanto a aceitar, sem emprego com carteira assinada e fazendo bicos de micreiro e garçom para tentar pagar a faculdade, o valor de uma viagem assim simplesmente representava um assalto contra o meu parco orçamento de estudante universitário fodido. No entanto, depois dos três dias que passei no evento, confesso que valeu cada centavo.
Para começar, ele conseguiu o que eu já considerava impossível: me manter na área por mais tempo. Depois de mais de um ano procurando emprego, eu já considerava como certa minha mudança para o curso de jornalismo. Os motivos pelos quais não consegui arranjar um emprego são indiferentes para o assunto, mas digamos que tem relação a montes de empresas presas a linguagens de programação dos anos setenta em uma cidade com centros de formação voltados para o século XXI...
Mas enfim, vamos falar do que importa aqui: O que cada um de nós fez por lá esse ano?
Para começar, eu cheguei atrasado. Ok, não foi minha culpa, mas mesmo assim fiquei me torturando por isso, realmente queria ver algumas das palestras das dez e onze horas, mas como não deu, me contentei em aproveitar o tempo para comer alguma coisa. O que, aliás, me fez perguntar: tudo em Porto Alegre tem aqueles preços exorbitantes ou foi só a minha mania de pobre que me deu essa impressão?
Independente da resposta, eu parti para a minha primeira palestra do dia: Reduzindo Custos (In)Visíveis com Software Livre, com Marcus Vinícius Brandão Soares. Que, vejam só a minha sorte, não aconteceu. Aparentemente o palestrante teve problemas e não pode vir, por isso o 2º Encontro Nacional Ubuntu Brasil começou mais cedo (fui o único a perceber uma certa redundância nesse título?).
Para começar, o Mário Meyer me pareceu bastante simpático, especialmente porque nós dois dividimos a mesma pança em ascensão. Ele começou explicando a origem do Ubuntu, como funcionam a nomenclatura das versões, etc, etc. Tudo em língua de gente e com bom humor, ou seja, sem aquelas frescuras verbais e tom excessivamente sério que muitas vezes vê-mos nas pessoas mais prepotentes. Infelizmente, o cachorro quente baratinho (?) que eu havia comido mais cedo teve um certo efeito indesejado e tive que abandonar o local rapidamente pela saída mais próxima de um banheiro (que ficava bem longe, para meu desespero).
Depois da hecatombe mal-cheirosa, eu tive que escolher uma palestra para ver no horário das quatorze horas, não voltei para o encontro do Ubuntu porque sempre achei que é desperdício de tempo pegar algo pela metade, e como sempre quis saber mais sobre o GIMP, já que o tenho instalado na minha máquina mas quase não uso, acabei optando pela palestra do mesmo. No entanto, quando cheguei por lá, notei que não era bem o que eu imaginei, e então dei no pé rapidinho.
Aproveitei então o tempo para passear pelos estandes e ver se encontrava algo interessante. Essa pequena busca me rendeu meia dúzia de CD's com distribuições Linux diversas, o NetBeans 5.5 e um boton do BrOffice.org, além de meia hora de luta contra aquele cubo colorido que estava no estande da Google, depois da qual sai xingando minha própria burrice.
Depois fui para o ônibus da excursão tentar descansar um pouco até as quatro, mas acabei caindo no sono até perto das cinco da tarde, quando o Jimmy Neutron me acordou (Sim, esse é o apelido do meu colega, vocês precisam ver o cabelo dele...).
Mesmo com o cabelo despenteado, mau hálito e cara de sono estampada, consegui chegar a tempo para a palestra sobre o X.Org, com o senhor Keith Packard. Honestamente, foi a melhor do dia, o humor do senhor Packard é tão notável quanto sua aparente paixão por cervejas. No entanto, fiquei forçado a formular a seguinte pergunta: Ser cachaceiro é pré-requisito para fazer parte da X.Org?
Depois, acabei finalmente aprendendo a lição sobre entrar em palestras cujo assunto não me interessa realmente. Implantação da Rede Local em Software Livre foi maçante do início ao fim para mim, realmente uma pena que eu tenha desperdiçado meu tempo. Especialmente porque tive de ir embora para o hotel logo depois. Como podem ver, não foi um dia muito proveitoso, mas foi bem divertido. Mas as coisas iam melhorar ainda mais no dia seguinte.
Para começar, a excelente Free Software and the Matrix me fez rir um pouco e pensar muito, traçando um paralelo entre a história do filme e os desafios do Software Livre. Ao fim da apresentação, os aplausos duraram quase um minuto inteiro. De todas as palestras em que estive presente, foi com certeza a mais aplaudida.
Dali eu dei um pulinho e fui para a palestra do senhor Carlos Afonso, Neutralidade da Internet: todos os datagramas são iguais perante a rede!, onde fiquei conhecendo mais a fundo a odiosa prática do Brockcasting e dos analisadores de datagrama, estes últimos violam completamente o princípio de privacidade, enquanto o primeiro com certeza pode ser considerado uma violação do mais fundamental direito humano: Igualdade.
Depois disso, eu fui almoçar com meus colegas da excursão, que me zoaram durante os últimos dias inteiros graças ao meu gosto exótico para comida. (Se você ainda se pergunta quem seria aquele maluco que misturou a sobremesa com feijão, acabou de achar ele). Quando voltamos eu aproveitei para continuar minha luta contra o maldito cubo colorido do estande da Google, o que me rendeu outra fragorosa derrota.
Derrotado, me dirigi para a palestra Software Livre na Inclusão Digital, com Victor Mateus Espíndola. Lá, finalmente consegui ver de perto um daqueles laptops de cem doláres, e eles realmente são fantásticos. Isso foi algo que o Victor conseguiu passar na palestra ao falar sobre o projeto piloto de um laptop por aluno. O que me deixou bastante irritado foi quando ele falou sobre o marketing pesado que a Intel vinha fazendo contra eles, usando os meios de comunicação brasileiros. Tudo bem que, neste país, a imprensa não leve o governo a sério, o governo não leve a imprensa a sério e qualquer pessoa minimamente inteligente não leve nenhum dos dois a sério. Mas manipulação sempre me deixa puto, não importa quantas vezes eu encontre disto por aí.
Lá pelas três da tarde, depois da palestra do Victor, me vieram algumas idéias e eu tive que encontrar um computador disponível para escrever. Encontrei um no estande da Software Livre Brasil e fiquei por lá até perto das quatro da tarde, quando salvei o trabalho no meu gmail e fui ver a palestra do senhor Louis Suarez-Potts, The future of OpenOffice.org – and how it can be yours. O que eu aprendi nessa palestra? Não reclame, faça.
Como a teimosia é minha companheira inseparável, voltei no estande do Google para mais um round contra o cubo colorido. Desta vez, o combate durou mais tempo, e eu quase consegui bater no maldito, chegando ao máximo de dois lados completados, obviamente, não foi o suficiente e ele acabou com a minha paciência pouco depois. Assim, fui ver uma palestra sobre o Librix cujo nome não me lembro.
Passei mais algum tempo em um dos computadores do hall, terminando de escrever o que eu havia começado mais cedo, e então fui dar uma volta pelos estandes antes de ir embora, às sete da noite, nesse tempo eu conheci um senhor muito simpático de uma empresa que presta serviços para o Senai, e foi ai que eu me liguei no grande objetivo de passear por esses estandes, não é ficar entregando currículos a torto e a direito, é conversar com gente inteligente e mostrar que você também é uma pessoa inteligente. E isso vale mais do que cem certificados.
Na volta para o hotel, descobrimos a história de Jimmy, o Paladino do Truco, em sua trilogia de quatro filmes: Jimmy Não Mente, Jimmy Ainda Não Mente e o impactante Jimmy Mentiu, com o arrependido Jimmy, de cabeça baixa, na capa. Além do último filme da trilogia, o Prelúdio: Por que Jimmy Não Mente, que conta a história de sua infância traumática, quando ele foi estuprado por um negão... bem, esqueçam tudo, apenas lembrem que, se Jimmy pedir Truco, corram. Saímos do hotel lá pelas dez horas para dar uma volta pela cidade, o que foi muito divertido, com direito a uma pizza inteira, e mais dois pedaços, sendo devorados por mim no Habbib's, no qual fizemos o lugar inteiro cantar parabéns para você sem que houvesse qualquer aniversariante por lá...
No terceiro dia, não houve muito tempo para ver palestras, tinha que estar no ônibus às quinze para o meio-dia, e ainda chegamos atrasados ao evento. Mas deu tempo de pegar a palestra Laptoop and Learning, com um discuso emocionado e emocionante de uma senhora da qual, infelizmente, não lembro o nome. Depois dessa palestra e da palestra com o Victor no dia anterior, o projeto de um computador por aluno tem meu total e incondicional apoio, e a Intel minha completa repulsa pela tentativa abjeta de ganhar dinheiro onde não deve.
Nos meus últimos momentos na FISL 8.0, eu pude conhecer melhor o GuBrO em Casos de Sucesso e Inclusão Digital com o BrOffice.org, honestamente, nunca achei que um trabalho iniciado a tão pouco tempo pudesse atingir um nível de equivalência, senão de superioridade, com um software proprietário com mais de dez anos de estrada. Pelo que consigo puxar pela memória agora, o revisor gramatical do BrOffice conseguiu 14 verdadeiros verdadeiros (revisão gramatical de um erro que realmente aconteceu) contra 15 do concorrente, enquanto obteve 19 falsos verdadeiros (revisão gramatical de um erro inexistente) contra 36 do concorrente.
E assim, impressionado com meu Software Livre favorito, foi que eu parti do FISL deste ano, com muitas boas lembranças e uma vontade renovada para a computação. Gostaria de agradecer imensamente a todos os palestrantes e organizadores do evento, além daqueles com quem conversei lá dentro. Vocês foram responsáveis por dar novo folego a um jovem desiludido. Este é, certamente, o maior prazer que este jovem idealista poderia ter em muitas vidas, um verdadeiro obrigada a todos vocês.
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Comentários
Sobre ausência no FISL 9.0
Caro Blogueiro,
Aqui é o palestrante que não foi ao evento, Marcus Vinicius, prestando um esclerecimento. Só agora li seu comentário no blog:
"Independente da resposta, eu parti para a minha primeira palestra do dia: Reduzindo Custos (In)Visíveis com Software Livre, com Marcus Vinícius Brandão Soares. Que, vejam só a minha sorte, não aconteceu. Aparentemente o palestrante teve problemas e não pode vir, por isso o 2º Encontro Nacional Ubuntu Brasil começou mais cedo (fui o único a perceber uma certa redundância nesse título?).
O esclarecimento é o seguinte: o palestrante (no caso, eu) mora no Rio de Janeiro e não tem recursos financeiros para ir viajar e hospedar-se. Como a organização do evento não me cedeu estes recursos, obviamente não pude ir.
Já enviei propostas a diversos eventos no Brasil, foram aprovadas, mas na hora de patrocinar o mínimo (nunca pedi pagamento pelas palestras, que é a base da economia de serviços, não ?) nunca há recursos. Por esta razão eu nem me esquento mais em enviar propostas.
Bem, como não vou poder ir mesmo aos eventos se tiver que pagar, escrevo para outros lugares que publicam meus trabalhos. Ao menos assim eu recebo pontos como escritor e melhoro minha reputação (o que é a base da economia da abundância - vide "A Catedral e o Bazar" do Raymond)
Estou à disposição para outros esclarecimentos.
Fortes abraços,
Marcus Vinicius Brandão Soares
Doutorando - COPPE-Sistemas
mvbsoares@gmail.com
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Eric S. Raymond
A Catedral e o Bazar
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