Língua e Definições
A língua é muito mais que uma ferramenta. É um conjunto de armadilhas que nos aprisiona e dita, de forma arbitrária, inclusive o que podemos pensar. Nosso pensar trabalha com conceitos, signos e significados que são expressos em língua. Se não há palavra para um determinado conceito na língua, teremos uma grande dificuldade para compreendê-lo. Quem já tentou explicar “saudades” para um falante da língua inglesa sabe bem da dificuldade.
Sempre temos que tomar cuidado com a língua pois ela não perdoa e sempre volta para nos cobrar o uso incorreto ou ambíguo de palavras que achamos que são claras como cristal.
Não sei quais os critérios usados pela secretária do grupo JTC-1 da ISO para continuar com o processo de “fast track” apesar dos questionamentos apresentados por diversos países membros. Imagino, no entanto, após ler a defesa apresentada pela ECMA que o foco central está na falta de definição correta do que seja “contradiction”.
O uso desta palavra da língua inglesa no processo de aprovação da ISO resultou em diversas manifestações que acompanharam a armadilha lançada pela Microsoft com apoio da ECMA. Ao definir “contradiction” como contradição, a discussão passou a se concentrar apenas nos pontos onde o ECMA Office Open XML “contradizia” ou “contrariava” outros padrões ISO. A resposta da ECMA às “contradições” apresentadas se fixou apenas no que foi apresentado como contrariando algum outro padrão ISO.
Enquanto isso, a ABNT, que se absteve de apresentar comentários ao procedimento, usa um outro termo para interpretar o tal “contradiction”: “contraditório”. Contraditório é termo processual e é a interpretação que deve ser dada ao “contradiction” da ISO. Durante o contraditório objetiva-se oferecer o amplo direito de defesa, quando se trata de processo penal. No caso do processo da ISO, o contraditório deveria permitir o amplo direito à discussão de qualquer ponto duvidoso relacionado à proposta de um novo padrão.
Acontece que o sistema foi dobrado. Ao manter um prazo exíguo para análise da proposta da ECMA, a própria ISO cerceou o direito à discussão nesta etapa de contraditório. Este cerceamento culminou, agora, com o prosseguimento do processo de “fast-track” apesar dos protestos de países como a África do Sul que afirma, para quem quiser ouvir, que o processo da ISO está viciado e sujeito a abusos.
Ao redefinir o escuro e desviar o foco da discussão, a Microsoft conseguiu forçar a passagem do Office Open XML para o próximo estágio do “fast-track”.
Talvez a própria língua, ou a partir de agora, a linguagem usada para estabelecer as regras de aprovação de um padrão pela ISO seja a última linha de defesa contra a imposição de um formato travestido de padrão.
Mas isso é tema para outro post.
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