Ada Digital entrevista Jomar Silva sobre Padrões Internacionais
Jomar Silva, Diretor Geral da ODF Alliance - Chapter Brazil, teve um papel de grande relevância técnica para a escolha brasileira na votação que disse não ao formato OOXML, sob a coordenação da ABNT. Nessa entrevista, Jomar nos fala sobre os "padrões internacionais", algo de muita importância, mas que, em geral, poucos sabem do que se trata.
Ada Digital: O que são os padrões Internacionais?
Jomar Silva: Segundo define a ISO, padrões internacionais provêm um framework de referência, ou uma linguagem técnica comum entre fornecedores e seus clientes, que facilitam o comércio e a transferência de tecnologia. Eles são elaborados através de acordos de consenso entre delegações nacionais representando todos os interesses econômicos de seus stakeholders – fornecedores, usuários, agências reguladoras (governo) e outros grupos de interesse como consumidores.
De forma simplificada, podemos entender um padrão internacional como um conjunto de regras, recomendações ou especificações que foram debatidas e aceitas pela maioria dos interessados ou afetados pela sua adoção em todo mundo, se fazendo representar nacionalmente pelas suas entidades de normalização como a ABNT no Brasil.
Ada Digital: Qual é a importância dos padrões internacionais no mundo de hoje?
Jomar Silva: Além de serem utilizados como referência para o desenvolvimento de novos produtos ou serviços, os padrões internacionais possuem no mundo globalizado em que vivemos um importante papel de regulação do comércio internacional.
A OMC (Organização Mundial do Comércio) aceita como barreira única ao livre comércio de bens e serviços os padrões internacionais. Isso significa que pelas regras da OMC, um país pode se recusar a comprar produtos ou serviços de outro apenas se os produtos ou serviços ofertados não estiverem aderentes aos padrões internacionais. Em caso contrário, se o país que oferta os produtos tiver sua oferta rejeitada pelo país comprador por restrições técnicas nacionais (em contraposição ás Internacionais), o país comprador deverá readequar os seus padrões para que reflitam os padrões internacionais.
Em uma das reuniões que participei na ABNT, foi contada a história de que uma empresa chinesa tentou vender ao Brasil bolsas para a coleta de sangue, que foram rejeitadas pois a norma brasileira para estas bolsas era diferente da norma internacional. Através de um recurso apresentado à OMC, o Brasil precisou readequar a sua norma nacional para que ela reflita a internacional, derrubando assim a barreira de entrada a produtos em nosso mercado.
Todos os países que são membros da OMC devem seguir as mesmas regras e isso tem um lado positivo e um lado negativo (em primeira análise), pois não podemos usar barreiras técnicas de forma indiscriminada à entrada de produtos e serviços em nosso mercado.
O positivo é que qualquer empresa brasileira que desenvolva produtos com base em padrões Internacionais, não terá barreira técnica de entrada em nenhum outro país. Por outro lado, nosso país também não poderá impor estas barreiras a outros países e a única forma de resguardarmos nossos interesses é através da participação nos comitês internacionais que desenvolvem e mantêm os padrões.
Por isso a importância do aumento da participação brasileira nos processos de padronização internacional. Para o setor de TI especificamente, devemos aumentar nossa participação para, no mínimo garantir as condições de competitividade da nossa indústria de TI frente aos nossos concorrentes internacionais e não tenha dúvida que todos eles estão ativamente participando destes comitês (ex. Índia, China e Rússia).
Ada Digital: e o que são os padrões abertos?
Jomar Silva: Existem atualmente diversas definições sobre padrões abertos, mas a definição que eu considero a mais completa é a definição utilizada na União Européia.
Esta definição é composta por quatro características fundamentais:
* O padrão é adotado e será mantido por uma organização sem fins lucrativos e seu desenvolvimento continuado será realizado através de um processo aberto de tomada de decisão, acessível a todos os interessados (por consenso ou voto).
* O padrão foi publicado e seu documento de especificação está disponível (gratuitamente ou a uma taxa nominal). Deve ser permitido a todos a copia, distribuição e utilização sem custo ou através de uma taxa nominal.
*A propriedade intelectual – ex. existência de patentes presentes – no padrão (ou em partes dele) estarão disponíveis irrevogavelmente através de um mecanismo livre de royalties.
* Não existem limitações à reutilização do padrão.
Um excelente exemplo de padrão aberto aderente à esta definição é o padrão ODF (OpenDocument Format), que também é um padrão Internacional (ISO/IEC 26300).
O ODF é mantido pelo OASIS, que é uma instituição sem fins lucrativos e seu desenvolvimento continuado é feito através de um processo aberto de tomada de decisão (o próprio SC34 do JTC1 da ISO participa do seu desenvolvimento dentro do OASIS). Sua especificação está disponível gratuitamente no site do próprio OASIS e no site da isso. Sua implementação é totalmente livre de royalties e não existe nenhuma limitação à sua reutilização.
Um outro exemplo interessante de padrão aberto é o protocolo TCP/IP (e seus derivados ou protocolos complementares como o http, ftp e smtp, entre outros) é desenvolvido pelo IETF e não impõe o pagamento de royalties para sua utilização, o que permitiu o crescimento exponencial da Internet devido à grande oferta de produtos compatíveis com ele no mercado. Em tese, qualquer empresa de fundo de quintal pode lançar o próximo produto “matador” com base nas tecnologias de Internet utilizando apenas a sua criatividade e capacidade de desenvolvimento para isso.
Esta é outra característica fundamental que sempre está associada a um padrão aberto, o elevado grau de inovação que ele propicia.
Ada Digital: então você quer dizer que investir no desenvolvimento de produtos ou serviços com base em um padrão aberto e internacional é uma excelente oportunidade de negócios para empresas de qualquer porte?
Jomar Silva: Exatamente. Uma grande empresa pode licenciar diversas tecnologias e patentes para iniciar o desenvolvimento de um novo produto. Uma empresa de ponta em tecnologia, desenvolve a suas próprias tecnologias para tal e em alguns casos protege o seu desenvolvimento através de patentes. Uma pequena empresa comumente não possui recursos para tal.
Neste caso, os padrões abertos atuam como uma imensa força niveladora entre as condições iniciais de competitividade destas empresas, pois todas elas irão partir de um mesmo ponto, de uma mesma especificação e a maior disponibilidade de recursos financeiros não garante as melhores idéias.
Existe um slogan que eu gosto muito, se não me engano é da Sun Microsystems, que é “Innovation happens anywhere”, ou seja a inovação ocorre em qualquer lugar (na grande ou na pequena).
Além de garantir esta condição inicial equalitária, os padrões abertos garantem ainda que os produtos vão poder ser utilizados em conjunto.
Se o padrão aberto for ainda um padrão internacional, teremos uma vantagem adicional que é a aceitação internacional daquele padrão, o que garante a quem o utiliza como base para o desenvolvimento a não existência de barreiras técnicas á exportação do produto final. Não é uma condição excelente para pequenas empresas ?
No livro “O Mundo é Plano”, de Thomas Friedman, ficam evidentes as possibilidades que o mundo de hoje oferece a quem tem boas idéias, competência técnica e muita vontade de trabalhar. Quando falamos em TI, não existem praticamente mais barreiras físicas no mundo de hoje e as existentes são facilmente contornáveis.
Em resumo, iniciar o desenvolvimento de um novo produto ou serviço baseado em padrões abertos internacionais é iniciar com o pé direito e ter garantida a compatibilidade do produto com os demais existentes no mercado e garantir que não haverão barreiras técnicas a ele no mercado internacional.
Ada Digital: e como estes padrões podem concorrer com os chamados “padrões de mercado” ou “padrões de fato” tão presentes no mercado de TI atualmente?
Jomar Silva: Eu pessoalmente acredito que os padrões de mercado são o legado de uma etapa anterior do desenvolvimento tecnológico internacional.
Se fizermos uma análise fria sobre estes padrões, veremos que todos eles foram desenvolvidos em uma época onde a especificidade de cada sistema de TI demandava efetivamente um padrão para o seu atendimento, época em que o desenvolvimento colaborativo não era realizado com efetividade nem dentro das próprias empresas de tecnologia. Esta é a razão pela qual comumente vemos padrões de um mesmo fabricante não serem nativamente interoperáveis. A necessidade e falta de alternativa viável na época fez com que cada empresa tivesse que desenvolver seus próprios padrões.
Com o passar do tempo, esta utilização de padrões proprietários trouxe uma vantagem adicional à empresas de tecnologia, chamada de “vendor lock-in” que é a necessidade de se utilizar a ferramenta adequada para manipular cada arquivo gerado pelo padrão. Isso garantiu a todos as empresa envolvidas anos e anos de elevada competitividade, mas trouxe aos consumidores sérios problemas causados pela falta de interoperabilidade, problemas inicialmente sentidos e contornados dentro das próprias empresas, problema normalmente contornado através da adoção da mesma ferramenta por toda a corporação.
Com o surgimento da Internet e o aumento da troca de documentos eletrônicos (que passou do limite do razoável durante algum tempo), os problemas de interoperabilidade começaram a incomodar a todos os consumidores e em alguns casos, afetaram o seu faturamento. É fácil de resolver quando o cara da contabilidade lhe envia uma planilha em um formato que você não consegue abrir, mas se este cara for um cliente lhe enviando uma extensa lista de compras, o desgaste para a solução do problema será (e foi) bem maior.
Isso acabou fazendo com que o mercado todo replicasse a solução adotada anteriormente, a de adoção de uma única ferramenta para a manipulação dos arquivos. Esta adoção foi impulsionada pelo posicionamento competitivo mais agressivo de algumas empresas, que acabaram conquistando uma grande fatia do mercado, ainda que na época a sua ferramenta não fosse a mais completa ou adequada às necessidades de todos. Isso levou ao monopólio que temos hoje no mercado, e distorceu a competição entre as empresas de tecnologia, pois a decisão de compra passou a ser motivada pela compatibilidade com o padrão mais utilizado e não pelo melhor conjunto de funcionalidades oferecida.
O mundo mudou, e surgiram alternativas em padrões abertos para o armazenamento destas informações. Novamente os surgimento dos padrões foram impulsionados pela necessidade de se desenvolver ferramentas de manipulação de arquivos de forma colaborativa, sem a necessidade de pagamento de royalties a ninguém.
Algumas empresas de tecnologia já haviam entendido esta mudança e resolveram colaborar para o desenvolvimento e evolução dos novos padrões abertos, entendendo que isso traria de volta a competitividade ao seu eixo adequado, a da oferta de uma gama maior de produtos compatíveis e competitivo pelas suas funcionalidades, não pelo aprisionamento das informações.
Estas empresa poderiam (e podem) pensar de forma diferente e continuar desenvolvendo seus próprios padrões, mas este pode ser o desejo delas, não dos consumidores que em última instância são a razão da sua existência. É em respeito a livre escolha dos consumidores que as empresas suportam de forma adequada os padrões abertos em seus produtos.
Os consumidores também estão mudando, e percebendo que existe uma alternativa viável para se verem livres de uma vez por todas dos problemas causados pela falta de interoperabilidade. Por isso que insisto em dizer que que tem dois padrões, não tem padrão algum.
Em última análise, a utilização ampla de padrões abertos no mercado de tecnologia da informação devolve o controle da situação para as mãos dos CIOs, que podem definir e adotar políticas efetivas de gestão de TI sem a dependência excessiva do fornecedor A ou B.
Isso já se tornou realidade no mundo de infra estrutura de redes (roteadores, switches e hubs), está em estágio avançado nas aplicações web (JAVA) e começa agora a evoluir nas suites de escritório e nos sistemas operacionais, onde temos opções adequadas a todos os gostos e bolsos, do software livre ao proprietário, dos PCs aos Macs e dos desktops aos dispositivos portáteis (incluindo aí os Smartphones que estão se popularizando exponencialmente hoje).
Com tudo isso, eu acredito que os padrões abertos irão naturalmente se tornar os padrões de mercado. É o caminho natual da evolução tecnológica e mudança cultural necessária a isso já começou.
Ainda assim, as empresas de tecnologia baseadas no modelo anterior tem todo o direito de insistir na perpetuação daquele modelo, podendo até tentar dar a ele uma “cara nova”, mas o mercado já tem maturidade suficiente para diferenciar uma coisa da outra.
Ada Digital: e o que você acredita que vai acontecer no mercado internacional de TI com a adoção cada maior dos padrões abertos e internacionais?
Jormar Silva: A competição vai voltar aos eixos.
Os produtos terão um ciclo de evolução mais acelerado, com barreiras menores á inovação e com o surgimento de cada vez mais players no mercado, o que trará uma redução de custos a médio prazo.
As informações armazenadas terão ainda uma garantia maior de longevidade, pois o seu acesso não depende mais da decisão de três ou quatro executivos de uma corporação, mas da decisão colegiada de centenas de pessoas e empresas envolvidas na padronização.
Irá ainda abrir uma janela de oportunidades imensa às empresas (e países) que entenderem com rapidez o novo modelo e se adequarem a ele. Talvez esteja aí o grande “mote” que falta ao software brasileiro internacionalmente. Eu costumava brincar com alguns amigos há anos atrás dizendo que o nosso lema para o setor de software deveria ser: “Brasil, país aberto, padrões abertos” e talvez ele se torne isso mesmo, pois imagine como ficará nossa condição de competitividade internacional se o desenvolvedor brasileiro se tornar internacionalmente conhecido como o melhor desenvolvedor em padrões abertos.
Para concluír, acredito que estamos passando por uma evolução (ou revolução) no mercado internacional de TI por conta dos padrões abertos. Como toda evolução ou revolução, sabemos como começa, mas não sabemos como acaba.
Quem viver, verá!
Blog do Jomar: http://homembit.zip.net
BRASIL ODF Alliance http://br.odfalliance.org
ODF Alliance http://www.odfalliance.org
Oasis Foudational http://www.oasis-open.org
ODF na Oasis http://www.oasis-open.org/committees/office/
* fonte: http://adadigital.net
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