OpenXML na reta final: como votar?
Na próxima quinta feira, 9 de agosto, teremos uma importante reunião da CE (Comissão de Estudo) da ABNT que debate a questão da aprovação ou não do OpenXML como padrão ISO. O Brasil é o único país da América Latina que é membro P da ISO, ou seja, ele é o único que tem direito a voto. Os demais países são membros O, de observador.
O voto brasileiro será adicionado a de outros países, no dia 2 de setembro, quando a ISO decidirá pela aprovação ou não do OpenXML. A questão da sua aprovação ou não como padrão ISO é de extrema importância para toda a sociedade. As implicações desta decisão são muito amplas: será definido que tipo de software usaremos nas próximas décadas, o grau de liberdade para se acessar no futuro os documentos armazenados hoje, bem como causará grande impacto na industria de suítes de softwares de escritório, hoje dominado pela Microsoft, que possui mais de 90% da base instalada. Interoperabilidade e portabilidade são palavras chave.
A sociedade informatizada atual troca documentos a todo instante, entre cidadãos, funcionários e governos. Um formato de arquivos que não permite livre trânsito ou que não garanta seu acesso no futuro torna-se um grande problema.
Mas como as entidades de padrões votam na ISO? As diretivas do JTC1 da ISO (onde a votação acontecerá) dizem claramente: “The period for fast-track DIS (or DAM) voting shall be six months, consisting of a 30-day JTC1 National Body review period followed by a five-month ballot period. NBs may reply in one of the following ways:
. Approval of the technical content of the DIS as presented (editorial or other comments may be appended);
. Disapproval of the DIS (or DAM) for technical reasons to be stated, with proposals for changes that would make the document acceptable (acceptance of these proposals shall be referred to the NB concerned for confirmation that the vote can be changed to approval);
. Abstention.”.
OK, vamos traduzir isso. As entidades de padrões só devem votar pela aprovação se tiverem certeza que o padrão proposto não contém erros técnicos. Um voto “yes” significa que a entidade está aceitando o padrão como proposto e que os únicos problemas encontrados são meramente editoriais, como virgulas e pontos fora de lugar. A desaprovação ou voto “não” com comentários significa que foram encontrados erros técnicos e existem questões de propriedade intelectual ainda não resolvidos. Este voto, com comentários anexados, indicam que o padrão poderá vir a ser aceito desde que os problemas sejam corrigidos da forma sugerida.
A entidade também poderá votar “Abstain” quando não se sentir competente tecnicamente (ou não tiver tido tempo suficiente) para avaliar o padrão de forma adequada.Também pode ser usado quando sua CE não chegou a um consenso quanto a votar “yes” ou “no”. Entretanto, ao votar pela abstenção, não terá garantias que seus comentários serão devidamente considerados na reunião de avaliação do padrão, quando os votos serão computados e os comentários analisados.
Ah, vamos falar desta reunião de avaliação, chamada de Ballot Resolution Meeting. Nesta reunião os comentários anexados aos votos “no” são analisados e se avalia se podem ser resolvidos de forma adequada pela entidade que propôs o padrão. O padrão só será aceito se os problemas identificados pelas entidades de padrões dos países puderem ser resolvidos adequadamente.
A decisão que as entidades dos países vão tomar vai definir com clareza se vale a pena ter um ou dois padrões para especificação de documentos (textos, planilhas e apresentações).
Já existe um padrão aberto aprovado pelo ISO, que é o ODF. Na minha opinião um único padrão maximiza os benefícios pelo efeito de rede (externalidade de rede), incentiva a inovação, aumenta a competição e amplia as oportunidades de escolha por parte do usuário, eliminando o aprisionamento forçado causado por um padrão proprietário. A proposta OpenXML, especificação desenvolvida pela Microsoft e apresentada via Ecma (European Computer Manufacturers Association), caso aprovada pelos órgãos de padrões dos países membros do ISO, vai gerar uma competição entre padrões, produzindo um efeito inverso ao de um único padrão. Dois ou mais padrões provocam uma tendência de agruparem-se ofertas de produtos em torno de um ou outro, diminuindo as alternativas e aumentando os preços no mercado. No decorrer do tempo, todos os usuários saem perdendo...Um exemplo é a Web: se além do padrão aberto HTML tivéssemos também um HTML# a Web teria esta amplitude hoje?
Venho pesquisando o assunto há bastante tempo. E tenho uma opinião formada. Primeiro estamos falando de uma proposta de mais de 6.000 páginas que devem ser analisadas com cuidado em um curto período de seis meses (a um ritmo de 1.000 páginas por mês ou mais de 30 por dia!), o que já impede uma análise mais criteriosa. E mesmo assim, muitos erros e inconsistências (inclusive várias dependências a tecnologias proprietárias da Microsoft) foram encontrados, todos amplamente divulgados na Internet. Já coloquei vários posts neste blog com estas informações, como vocês podem ver pesquisando as tags ODF e OpenXML.
É interessante obervar que no primeiro período de avaliação e envio de contradições (30 dias), 10 países, como Canadá, Austrália, Alemanha e Reino Unido, com ampla experiência em padrões, disseram que devido a erros e inconsistências, o OpenXML não deveria continuar sendo analisado por fast-track.
Depois, é importante lembrar que a proposta do OpenXML, segundo o documento da Ecma diz claramente: “Produce a Standard which is fully compatible with the Office Open XML Formats”. Isto quer dizer que um determinado software é que está direcionando o padrão e não o padrão que está direcionando as implementações de softwares...Ou seja, na prática ninguém poderá fazer mudanças no padrão (mas não é aberto?), se a Microsoft não aprovar.
Fica em aberto uma questão: alguma empresa de software poderá desenvolver uma suite 100% compatível com OpenXML? Quanto tempo necessitará para desenvolve-la (analisando 6.000 páginas) e quanta documentação específica de produtos Microsoft deverá absorver (se for factível) para conseguir esta proeza? Pensemos também no fato que, mesmo que OpenXML seja aceito pela ISO, devido a tantas inconsistências e problemas já identificados, a Microsoft e a Ecma levarão um bom tempo para sanar estas deficiências. Podemos falar em um ano? E quando sanarem ficará claro que o padrão OpenXML Ecma atual não será o mesmo de um eventual OpenXML ISO. Ora, durante este período de tempo dificilmente alguma sofware house desenvolverá um produto, para assim que estiver pronto ser refeito em grande parte. Na prática existe a imensa possibilidade da Microsoft ser a única desenvolver suporte para OpenXML. Aliás, alguns padrões Ecma são adotados apenas pela Microsoft. Basta lembrar o C#, que é um padrão Ecma, mas que só existe na implementação da própria Microsoft.
O assunto merece uma reflexão bem ampla. Temos um padrão aberto e já adotado por diversos softwares que é o ODF. Existe uma proposta de um segundo padrão, com claras inconsistências e problemas técnicos, com forte predomínio de um único fornecedor. Para mim está muito claro que o voto mais adequado deverá ser “no” com comentários.
* fonte: Blog de Cezar Tauriion - IBM
- 433 leituras





