Por dentro do GT que analisa o OpenXML na ABNT
Terça próxima, dia 21, teremos reunião na ABNT, no Rio de Janeiro, onde decidiremos o voto brasileiro com relação à aprovação ou não da proposta da Ecma de tornar o OpenXML um padrão ISO.
Um dos mais atuantes membros da Comissão de Estudo (CE) que analisa o OpenXML é Jomar Silva, diretor da ODF Alliance no Brasil. Conhece profundamente ODF e OpenXML e pode falar com conhecimento de causa.
Devido a importância do assunto, conversei longamente com ele sobre suas opiniões e gostaria de compartilhar esta conversa com vocês.
A primeira questão foi exatamente saber como, na opinião dele, estão os trabalhos no GT da ABNT relativos ao OpenXML.
Segundo Jomar, “o GT que cuida da análise do OpenXML já analisou mais de 150 comentários (de 234 postados até o momento), e com base neles já discutiu entre 30 e 40 comentários técnicos que já estão preparados de acordo com os formulários da ISO para a análise da CE e eventual envio à ISO. A diferença entre os números se deve principalmente ao fato de houveram comentários apresentados que tinham conteúdo semelhante e por este motivo foram agrupados (caso típico de erros na especificação dos atributos em uma seção do documento, que afeta a seção toda). Este grupo conta atualmente com aproximadamente 15 técnicos, e grande parte dos comentários foram postados por apenas 4 pessoas.
O ideal seria a possibilidade de que cada um dos participantes do GT pudesse fazer uma análise detalhada das 6.000 páginas, mas em 5 meses isso é impossível. Por este motivo, dividimos o trabalho de análise do documento em algumas partes (entre aqueles dispostos a comentar efetivamente a especificação) e além disso recebemos contribuições de comentários enviadas por técnicos do mundo todo. Desta forma, cada um dos participantes (que postaram comentários) relataram os problemas encontrados por eles próprios e fizeram ainda a análise dos problemas a eles encaminhados dentro de cada parte do documento.
Foi um trabalho extremamente cansativo e que espero seja recompensado pela utilização dos problemas encontrados para o debate e a deliberação do voto brasileiro que, como insiste a ABNT, deve ser uma análise técnica e não política ou comercial”.
Uma segunda questão foi: fala-se muito que ODF e OpenXML tem objetivos diferentes e que o OpenXML foi feito para garantir compatibilidade com o legado. Analisando a documentação do OpenXML em detalhes, como vocês fizerem, esta alegação procede?
Segundo Jomar, “esta informação não possui nenhum embasamento técnico sólido na especificação e por isso acredito que esta alegação não seja tecnicamente válida".
Em outras palavras, a especificação não trata em nenhum momento a conversão dos arquivos binários para o novo formato, se limitando apenas a definir o novo formato baseado em XML, que diga-se de passagem é exatamente a mesma coisa que faz a especificação do ODF. Sem este mapeamento de binário para o novo formato, fica inviabilizada a comprovação técnica de que o ODF não suporta o legado e portanto a necessidade do OpenXML é questionável.
Gostaria apenas de recordar que já aprendemos nos últimos anos que a existência de diversos produtos similares ou equivalentes faz com que o preço final ao consumidor seja reduzido (lei da oferta e da procura). Por outro lado, a existência de dois padrões para uma mesma finalidade acaba por elevar o preço dos produtos ao consumidor final, como por exemplo os dois níveis de tensão elétrica em uso no Brasil e os diversos tipos de tomadas elétricas. Tudo isso funciona com adaptadores, que acabam encarecendo tanto o custo do produto final quanto o custo de utilização do próprio produto (afinal de contas, quem nunca queimou um equipamento elétrico por liga-lo a uma tomada incompatível ? Ou que nunca cortou o pino de terra de uma tomada de computador para poder utiliza-lo em tomadas convencionais ?)”.
Bem, e claro, não podia deixar em branco a reunião da próxima terça feira, quando se decidirá o voto brasileiro. E, claro, perguntei o que ele espera desta reunião.
Jomar foi bem objetivo: “dada a seriedade e competência trabalho realizado pelo GT e investimento feito por todos que contribuiram com ele (custo de deslocamentos e viagens, horas alocadas e "brain power", muito "brain power"), eu realmente espero que os problemas técnicos encontrados sejam analisados com cautela pela CE e que a decisão desta comissão seja feita com base no rigor técnico que é esperado de uma comissão da ABNT.
Se cabe aqui um comentário pessoal, como Técnico em Eletrônica e Engenheiro Eletrônico, eu sempre vi a ABNT como "a referência técnica" no Brasil e sempre admirei muito o trabalho realizado pelas suas comissões. Este foi um dos principais pontos que me motivou a me dedicar da forma pela qual me dediquei á discussão, podendo assim contribuir para o avanço da padronização no setor de TI no Brasil, além de finalmente colocar o Brasil no mapa das decisões internacionais de padronização de software. Sem esta representatividade internacional, é muito difícil para nosso país conquistar e manter uma sólida posição internacional como produtor de software.
Espero honestamente que esta oportunidade não seja disperdiçada por interesses comerciais ou políticos e que sejamos capazes de provar para o mundo todo que os técnicos, empresas e instituições brasileiras possuem a competência, o comprometimento e a seriedade necessária para participar e contribuir de uma discussão técnica internacional de tamanha relevância como esta, colocando os aspectos técnicos á frente de quaisquer outros interesses envolvidos. É a nossa primeira votação importante no JTC1 da ISO e o mundo todo aguarda ansiosamente o posicionamento brasileiro”.
OK, e depois da decisão da ISO, que deve ocorrer dia 2 de setembro? Que ele acha que acontecerá? A resposta foi clara: “depois desta data, espero honestamente que os proponentes do OpenXML mostrem a todo o mundo que compreendem que o mundo mudou, que a era do aprisionamento e do "vendor lock-in" em padrões de armazenamento de documentos já acabou e que tomem a iniciativa se se unir às dezenas de empresas que trabalham na evolução do ODF, para que possam ter suas contribuições recebidas de braços abertos por esta comunidade. A era dos padrões abertos já chegou e cada vez mais a comunidade internacional de TI sabe indentificar com clareza um padrão verdadeiramente aberto. Pelo menos para isso esta discussão internacional sobre o OpenXML foi produtiva”.
Muito bem, e quanto ao ODF... Como está seu processo de aprovação, como Norma Brasileira, pela ABNT?
Segundo ele, “por ser uma norma ISO, já discutida e aprovada internacionalmente o ODF está atualmente sendo traduzido para o Português do Brasil pelo Grupo de Trabalho 1 da Comissão de Estudos (CE) 21:34 da ABNT. Este grupo trabalha sob minha coordenação e nesta semana iremos receber as últimas traduções. Será então realizado um trabalho de revisão da tradução, estimado em 30 dias, para que o documento traduzido possa ser apresentado à CE da ABNT, que após a aprovação da tradução irá encaminhar à ABNT.
Segundo orientação da ABNT, ao receber uma tradução de norma de um grupo de trabalho ela coloca a norma em consulta pública durante um período de 30 dias, permitindo que qualquer interessado faça a revisão da tradução e envie seus comentários (não existe aqui avaliação de mérito técnico da questão, uma vez que ela já é uma norma internacional). Após o período de 30 dias, os comentários recebidos serão analisados pelo Grupo de Trabalho e serão feitas as eventuais complementações ou correções no texto, finalizando assim o Draft que será apresentado em uma reunião com a presença da Comissão de Estudos e de todos aqueles que enviaram os comentários, que irão deliberar sobre sua aprovação.
Após a aprovação, o documento será encaminhado para a ABNT publicá-lo como norma brasileira (NBR) através dos seus processos internos. Nossa espectativa é que este processo todo seja realizado antes do término deste ano.
Segundo a orientação da ABNT, a tradução para português se faz necessária pois de acordo com a legislação vigente, todas as normas técnicas brasileiras devem ser publicadas neste idioma”.
Fonte: Por Cezar Taurion, em www-03.ibm.com/developerworks
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