Porque me oponho ao OOXML?

Como todos sabem, Portugal aprovou o ooxml como um padrão para documentos eletrônicos. Abaixo, um relato preciso e esclarecedor de Rui Seabra, vice-presidente da Ansol, a Associação Portuguesa para o Software Livre:

Sendo um forte militante do Software Livre e dos padrões abertos, opor-me ao Office OpenXML aparenta representar uma contradição: "Mas o OOXML é aberto e baseado em XML", diz o incauto, "porque é que te opões a isso? Só porque é da Microsoft?"

Ao recorrer dos termos "Open" e "XML", a Microsoft tenta convencer que o seu formato proprietário é um padrão aberto. Reinventar os termos para resultar noutros significados ilusórios foi formalizado na obra "1984", de George Orwell, como newspeak, onde termos e registos históricos eram continuamente modificados para criar o poder de consolidar dois pensamentos contraditórios, e aceitar ambos como verdadeiros. Pense em "Office OpenXML". É padrãp aberto ou formato proprietário? A resposta intuitiva é "sim", mas é a resposta errada. Tal como num dos slogans d'O Partido de "1984", Ignorância é Força.

  1. O OOXML depende do Windows e outras tecnologias da Microsoft para ser corretamente interpretado. Há dúvidas? Basta olhar para a especificação, na página 1332: "autoSpaceLikeWord95 (Emulate Word 95 Full-Width Character Spacing)" E como é que se define isto? Na especificação não está.
  2. O OOXML não distingue corretamente alguns anos bissextos, resultando em falhas graves no cálculo de datas gregorianas (o nosso calendário atual). Resulta em aberrações como declarar que o dia 1 de Janeiro de 1900 é um Domingo quando deveria ser segunda-feira. Não acredite em mim, abra o Excel e escreva a seguinte fórmula: =WEEKDAY("1/1/1900"). É simplesmente um absurdo padronizar um erro. Termina aqui o problema? Não. Não especificam se usam radianos ou graus nos ângulos das funções trigonométricas e alguns erros atrozes em funções estatísticas nem leva em conta os dias de trabalho em culturas diferentes, que não são necessariamente Sábado e Domingo.
  3. Uma fortíssima recomendação das definições de padrões é a reutilização de padrões existentes. Por exemplo, existindo um padrão compreensivo para fórmulas matemáticas, o MathML, é negligente definir um novo conjunto de regras. O que faz o OOXML? Define um novo conjunto de regras acrescentando centenas de páginas à especificação, duplicando ainda mais os esforços de implementação. Não é o único exemplo. Mas já basta.
  4. O OOXML vem duplicar os esforços de padronização de um formato de documentos. Esta duplicação é negativa porque funciona dentro do mesmo âmbito mas apenas uma empresa a pode implementar. Não é o mesmo que existir HTML, ODF e PDF. São formatos orientados a mídias diferentes. Se o HTML e o PDF não fossem standards, não seriam tão difundidos como o são hoje em dia. Se existissem padrões implementáveis apenas pela empresa com monopólio do mercado de desktops, então os restantes fornecedores ver-se-iam obrigados a depender da Microsoft.
  5. A Microsoft alega que o OOXML é um formato retro-compatível, mas as dependências nos seus produtos anteriores, referidas no ponto 1, impedem outros fornecedores de implementar o formato sem recorrer a mais informação restrita, ou depender de acordos legais ou pagar indemnizações.
  6. A Micrososft tem um histórico enorme de criar extensões proprietárias a padrões por forma provocando um efeito de dependência dessas extensões.
    De fato, a implementação do OOXML da Microsoft contém extensões proprietárias ao próprio OOXML, ou seja, não existe uma única implementação fiel do OOXML. Nem na Microsoft.
  7. O OOXML é abrangido por patentes de software não identificadas da Microsoft, que não as liberta de uma forma royalty-free, fator indispensável para um padrão. A Comissão Técnica portuguesa não fez nenhum estudo legal que garanta que um fornecedor não vai estar sujeito a sofrer litigação da parte da Microsoft, tornando o risco demasiado elevado para valer a pena. É mais fácil aceitá-lo em duas horas definindo o consenso nacional a favor do Microsoft OOXML.

Assim, convictamente, oponho-me ao OOXML porque não passa da definição de um formato proprietário em busca de uma benção da ISO/IEC. Apelo para que assine a petição contra o OOXML: http://www.petitiononline.com/OOXMLPT/petition.html

Fonte: tek.sapo.pt

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