Uma aventura chamada OOoCon 2006
Este é o relato da primeira participação da comunidade brasileira num evento internacional do OpenOffice.org. Este material seria um artigo numa revista sobre software livre, mas que por motivos adversos ficou engavetado, até q decidimos publicar aqui. Vale a pena para saber como é a "vida do OpenOffice.org" fora do Brasil. ;)
Anualmente, é feito um evento destinado à integração entre os desenvolvedores ao redor do globo, chamado OpenOffice.org Conference - OOoCon, para conhecer melhor o trabalho dos diversos projetos que acontecem dentro do universo OpenOffice.org. Este ano, entramos na quarta edição deste evento.Como é praxe, a cada ano é feita uma chamada para locais interessados em hospedar o evento. O primeiro encontro foi em Hamburgo, sede da antiga Star Division, empresa que desenvolveu o StarOffice, em 2003. Em 2004, foi a vez de Berlim, também na Alemanha, e no ano passado, em Kopper-Capodistria, na Eslovênia. Neste ano, foi a vez de Lyon, uma das cidades tombadas pela Unesco como patrimônio da humanidade1.
Lyon é uma cidade muito curiosa, pois apresenta, ao mesmo tempo, uma arquitetura muito antiga, com um estilo típico da França antiga, ao mesmo tempo que apresenta uma infraestrutura moderna, com os modernos meios de transporte como metrô, ônibus e trens urbanos elétricos.A viagem
A viagem foi algo diferente também, pois foi a primeira vez que viajei para um país que não falasse espanhol, tendo que me virar apenas com o meu (terrível) inglês. A saída, como de praxe, é de madrugada, saindo do Mato Grosso em direção a qualquer aeroporto do país, que neste caso, foi no aeroporto internacional do Galeão, no RJ. Chegando lá na metade da manhã, ficaria até o final da tarde esperando o vôo internacional. O bom de se trabalhar com projetos de software livre são os amigos que conhecemos, espalhados pelo Brasil e pelo mundo, e foi graças a isto que tive a satisfação (e tempo) de almoçar com o Olivier Hallot, nosso diretor financeiro, da ONG BrOffice.org – Projeto Brasil, e me atualizar o possível sobre viagens à Europa. Ele esteve lá recentemente e me deu boas “dicas de sobrevivência”. ;-)
A tarde, voltamos para o aeroporto, e iniciou a espera até o embarque. Depois, foram suas dez horas de vôo até Lisboa, onde teve a conexão para Paris. Ao chegar em Paris, com uma diferença de seis horas de fuso-horário, foi o choque ao perceber que não havia ninguém lá para me receber. A minha sorte foi ter encontrado um brasileiro, que vive na França a cinco anos, dando aulas de capoeira, chamado Daniel, que me ajudou a chegar a estação de trem e ir para Lyon.
Ao chegar na estação, comprei a passagem e esperei até as 14h, horário de saída. Vendo aqueles trens encostando na estação e vendo os números das plataformas, foi impossível não pensar “onde fica a plataforma 9 3/42 ?”. O incrível da viagem foi descobrir que levei apenas duas horas para percorrer 512 Km entre Paris e Lyon. Por isso que chamam de “trem-bala”.
Já em Lyon, me senti o próprio excluído digital, pois quando perguntava sobre cibercafés, para acessar a internet, todos me perguntavam se eu tinha wi-fi, pois a cidade já tinha este serviço, bastando eu “abrir o notebook e navegar”, caso contrário, só na segunda-feira, para achar algum ciber aberto. Foi terrível...O evento – Dia 01
No dia seguinte, segunda-feira, acessei meus emails e recebi o contato do Cedric. Pedi ao atendente do cibercafé telefonar e pedir as informações. Foi muito estranho ver aquela conversa em francês, mas rapidamente, já via as anotações sobre como chegar ao evento. Este foi outro ponto positivo em ter feito o evento no interior, pois diferente de muitos comentários de vários amigos, o povo em Lyon foi extremamente atencioso e preocupado em ajudar, mesmo não entendendo inglês.
O evento ocorreu no Instituto Nacional de Ciências Aplicadas – INSA – de Lyon, e foi necessário só um metrô e um trem elétrico até lá. Uma peculiaridade foi ver os trilhos do trem que cortam a cidade, quando estão passando pelas calçadas ou áreas de menos trânsito, pois tem grama plantada entre e ao redor dos trilhos. Quando vi pela primeira vez, achei curioso aqueles “trilhos em desuso”, pois imaginei que para ter grama, não passava nada por ali a muito tempo. Foi incrível ver natureza e tecnologia convivendo em harmonia, ao ver o trem passar por aquele “tapete verde”.
Quando cheguei ao INSA e localizei o pessoal do evento, foi muito bom ver tantas pessoas que já conhecia a anos, e outras que só conhecia de nome, ali presentes, conversando sobre as mais diversas coisas. Como sou usuário típico do Planeta OOo3, foi muito fácil reconhecer muito dos desenvolvedores que fazem a diferença no desenvolvimento do OpenOffice.org. Na recepção, fui prontamente atendido e com o registro e acomodações providenciadas.Enquanto caminhava pelo saguão, help desk (nome que deram à recepção), e pequenos stands improvisados, encontrei Rene Engelhard e pouco depois Chris Halls, os dois mantenedores dentro da distribuição Debian, e seletos desenvolvedores do pacote OpenOffice.org. Conheci pessoalmente o Chris em 2004, na DebConf que aconteceu em Porto Alegre, RS, e vê-lo ali foi gratificante por ver um rosto amigo no meio de tantos nomes conhecidos, mas pessoas desconhecidas.
Algo muito interessante destes eventos, como o OOoCon e o DebConf, é que os desenvolvedores abrem seus notebooks e começam a fazer o trabalho ali, sentados, enquanto conversam com outras pessoas, comem alguma coisa, ou simplesmente ficam quietos. Naquele momento, puxei uma cadeira e me sentei perto do Rene e do Chris para discutir a questão do BrOffice.org dentro da distribuição Debian e incorporada na sessão principal (main) do repositório. Foi incrível ver que, com pouco mais de uma hora de conversa, já estava quase pronto o nosso pacote, e com uma solução simples e eficiente.
A segunda-feira foi um dia dedicado aos encontros da comunidade, como Conselho Comunitário, Comitê Organizador, entre outros. Neste dia, fiquei a cargo do encontro do Conselho de Idioma Nativo, que consiste na reunião de todos os coordenadores de seus respectivos idiomas. No meu caso, sou responsável pelo português do Brasil (que é distinto do português de Portugual, coordenado pelo Vitor Domingos).
Charles-H Schulz, líder do NLP (Native Language Project) abriu a sessão, pedindo para as pessoas se apresentarem. Lembro-me do próprio Charles começando e comentando ser do grupo francês junto com Sophie Gautier, a líder daquele projeto. Passando a palavra, se apresentaram grupos e, em alguns casos, apenas um representante, de outros NLPs, como o pessoal da Alemanha, o representante da Tailândia que não recordo o nome, a Rafaella Braconi, gerente de localização da Sun para Open/StarOffice e co-líder do Projeto L10N, o representante do Japão, um japonês que faz capoeira, chamado Tora, o pessoal da Holanda, com o amigo Simon Brower, que apesar de holandês, muito ajudou a comunidade brasileira, tanto ajudando com dicas na nossa localização (parte procedimental), quanto nas listas de discussão, ajudando nossos usuários (sim, ele fala português também ;-) ). Além destes, também Pavel Janik, um dos principais desenvolvedores do OOo, da República Tcheca, Dwayne Bailey, da África do Sul, e Javier Solá, da Camboja, ambos desenvolvedores do Pootle, ferramenta de suporte a localização de software. Depois seguiam os grupos da Itália, Hungria, Geórgia, Escócia, e lá no meio, o representante da comunidade catalã, o Jesus Corrius, que participa desde o início do projeto internacional, responsável pela criação da primeira localização e comunidade que não as herdadas do StarOffice. Por fim, o pessoal da Índia também estavam presentes e fechando a porta, chegaram o pessoal da Coréia. Claro que, além destes todos, estava eu e o Louis Suarez-Potts, gerente geral do projeto OpenOffice.org, do Canadá.
Na pauta do dia, a discussão girou em torno da discussão sobre documentação, ou melhor, da falta dela. Existe uma demanda muito grande, sobre uma “documentação oficial” do projeto e uma infinidade de esforços em produzir material localmente, sem um retorno para o projeto de documentação do OOo. Outro ponto salientado por Charles foi o não uso do wiki do projeto. Realmente, é interessante utilizar esta ferramenta, mas também é interessante notar que é algo que já fazemos a anos aqui no Brasil, e agora que está sendo discutido naquele patamar. Ainda no ponto de documentação, foi discutido a questão da licença, onde houve o comentário de que a licença Creative Commons não é uma licença em si, mas sim, uma permissão, e que o ideal seria utilizar a PDL – Public Documentation License – desenvolvida pela própria comunidade, com suporte da parte jurídica da Sun. Por sinal, foi frisado várias vezes que o trabalho é da comunidade e não da Sun.
Depois de ter escutado toda essa discussão, me vi em uma situação realmente confusa, pois ao meu ver, muitas coisas ali já teriam sido resolvidas. Algo que notei foi a não preocupação em relação a descendência jurídica, isto é, se a legislação nos respectivos países é de origem romana ou comum, complicando a interpretação e/ou aceitação da licença, fato que já discutimos no Brasil a alguns anos.
Por fim, não se teve muitos resultados, pois acho que choquei o pessoal com esta questão. Louis, ao ver esta situação, sintetizou no quadro a questão pedindo que seja definido a questão do uso das licenças, e respectivas traduções com valor legal, nos diversos países.
Aproveitando a deixa, Louis também solicitou que as comunidades definissem o que mais poderíamos precisar, para que seja implementado na página do projeto, e foi aí que fiquei pensando no nosso CMS (Content Manager System), o Drupal, forrado de módulos que tornam-o muito interessante (poderia ser outro, como o WordPress ou o Joomla), trazendo facilidades para nossas mãos, mas acho que seria pedir demais.Além disso, foi feito alguma discussão sobre o controle de qualidade sobre os pacotes de idiomas e procedimentos. No entanto, definitivamente, acho q precisaria uma tarde inteira só para começar essa discussão, mas ao estilo de “Festa de caça aos bugs”, comum nas comunidades na parte de desenvolvimento de código. Findada as duas horas de reunião, que foi bem produtiva, Charles encerrou o encontro, agradecendo a todos e convidando para uma confraternização a se realizar nas águas dos Rios Saône e Rhône, conhecendo os principais pontos turísticos de Lyon.
As palestras – Dia 02
Na terça-feira, dia 12 de setembro, iniciou o ciclo de palestras, agregando 46 atividades ao longo de dois dias de trabalho. Neste dia, tivemos as atividades divididas em três macro temas: comunidade, desenvolvimento e geral. Como em todo o evento, foram programadas três palestras paralelas nos macro temas citados, com exceção das sessões principais que acontece no auditório principal de INSA.
Para a abertura, Debra Anderson, CIO da Novell, explicou como foi o processo de migração interno em sua empresa, para a adoção de soluções de SL/CA. Como de praxe, o trabalho de migração dos desktops se iniciou pelas aplicações de escritório, passando por internet, e demais ferramentas e serviços. Ela apresentou também frisou sobre a alocação de desenvolvedores no projeto, através do Suse Linux. Lembro-me que toda a parte de integração ao KDE e uso de QT no OpenOffice.org é patrocinado pela Novell.
Na seqüência, falou Zaheda Bhorat, gerente de projetos open source do Google. Zaheda apresentou a importância e trabalhos dentro do Google usando o open source e mostrando um pouco como este uso ajudou o crescimento da empresa. A seguir, entrou no foco da apresentação, explicando o projeto Google – Summer of Code, uma idéia que surgiu a partir de uma situação real que acontece no verão (no hemisfério norte?), onde os alunos desenvolvem código para ganhar uma renda extra nas férias. O projeto é simples: foram escolhidos projetos estratégicos e selecionados orientadores e alunos com perfis variados, adequados à estes projetos, que vão produzir correções de bugs, melhorias e novas características, ou outra coisa nestes projetos escolhidos, e sendo patrocinado pelo Google. Para mim, que não conhecia os detalhes deste projeto, achei sensacional, pois no final TODOS saem ganhando. Precisamos nos empenhar mais para poder participar mais, tanto com alunos, quanto com orientadores.
A partir daí, passamos às palestras paralelas, nos três macro-temas: Comunidade, Desenvolvimento e Geral. Da maratona de palestras, sempre ficamos com aquela dúvida entre, no mínimo, duas. Apesar do conteúdo das palestras, algumas chamaram mais a atenção, e que julgo importante salientar, como foi o caso da apresentação do Louis Suarez-Potts, gerente de comunidade do OpenOffice.org. Tornou-se praxe a abertura dos trabalhos com o Louis fazendo uma retrospectiva do projeto, e neste ano, falando destes 6 anos de projeto, falando da evolução de usuários, comunidades, características do programa, entre outros.
Outra palestra que chamou a atenção foi a OpenOffice.org around the globe: the Native-Language Confederation, onde Charles-H Schulz falou sobre o projeto , sua abrangência, metas e trabalhos. Particularmente, fiquei um pouco decepcionado ao ver a pouca informação que temos ao redor do mundo, e que acabou gerando uma discussão salutar sobre a necessidade de trabalho neste ponto, tanto para a parte de marketing, quanto de controle e informação do que acontece. Neste ponto, vi um trabalho potencial muito grande e que podemos ajudar as outras comunidades.
Findada as palestras da manhã, fomos para o almoço. Realmente foi bem diferente do que temos costumes. Aquele povo só come sanduíches, os bagettis (talvez pela praticidade, talvez pelo tempo). Aproveitei o intervalo do almoço e fui comprar alguma lembrança para o pessoal de casa, junto com Christian Hard, nosso guia e presidente da fundação francesa que mantém as atividades do OpenOffice.org na França. Foi impressionante saber das atividades desenvolvidas pela fundação e mais ainda quando soube a origem dos fundos. Hard escreveu um livro de OpenOffice.org, com mais de 400 páginas (uma espécie de bíblia), e reverteu toda a arrecadação deste livro para a fundação. Fiquei imaginando se seria possível esta fórmula no Brasil, e concluí que não é da nossa cultura comprar livro como na França, precisando de muitas outras ginásticas e acrobacias para manter o projeto no nosso país. Mesmo assim, foi graças aos esforços da fundação francesa e da nossa ONG – BrOffice.org Projeto Brasil – que conseguimos viabilizar esta viagem e proporcionar a vocês este resumo. Obrigado!
Voltando para o evento, acredito que o ponto alto do dia foi a apresentação OpenOffice.org 2.x and beyond, que deveria ser apresentada pelo Erwin Tenhumberg, gerente de marketing da Sun para Open/StarOffice, e que no fim foi o chefe dele, Michael Bemmer, diretor de engenharia de software para Open/StarOffice, da Sun, q apresentou. A palestra dele ficou dividida em duas partes básicas: a integração da equipe da Sun no desenvolvimento do OpenOffice.org, e o que está por vir nas próximas versões. Foi interessante ver um diretor da Sun mostrar como a empresa teve que se ambientar ao novo modelo de desenvolvimento, tendo seus funcionários conectados ao IRC, usar wiki, definir meios para interagir com a comunidade, de maneira completamente diferente dos padrões tradicionais de desenvolvimento de software. Dois pontos que foram marcantes no quesito desenvolvimento foi a redução dos tempos de resposta à bugs, que caiu de 50-60 dias para 3-5 dias, e o tempo de inatividade para os bilhetes abertos, que baixou de 130 para 40 dias. São nestes bilhetes, ou tickets, que os usuários e desenvolvedores reportam falhas, dão sugestões de desenvolvimento, ou outros problemas.
Na continuidade, Bemmer falou do que podemos esperar para as próximas versões, como questões relacionadas a performance, como inicialização da aplicação, e tempo de abrir/salvar documentos, da habilidade de efetuar auto-atualização do sistema e integração com outras aplicações como o NetBeans. Outras melhorias por vir são evolução no padrão ODF, melhor interoperabilidade com os produtos Microsoft e usabilidade. Ao meu ver, o mais fantástico será o trabalho de integração com os produtos Mozilla Thunderbird e Lightning, para a parte de gerenciamento pessoal de informação (PIM). A possibilidade de ter uma ferramenta de escritório que o Open/BrOffice.org já são, com recursos adicionais de agenda e email integrados, realmente é tudo que se pode esperar.
Após o final das palestras do segundo dia, tivemos uma recepção no Salão de Dança, da Prefeitura de Lyon, uma edificação do século XVIII. Foi algo que impressionou a todos, pois tratava-se de um salão iluminado com lustres de cristal, decorações douradas, e querubins pelas paredes. Se já não bastasse a sala em si, foi um momento de grande integração com todos os participantes, pois foi uma boa oportunidade de vermos todos. O melhor de tudo foi que a recepção toda foi regada a champagne francesa. Claro que não deve custar a terça parte que custaria aqui, mas não deixa de ser interessante pensar nisso. ;-) Acredito que todos se sentiram realmente prestigiados.
Último Dia – Dia 03
Depois de fazer minhas malas e fazer a saída do “Hotel OpenOffice.org”, alguns quartos locados da Casa do Estudante, do INSA, cheguei ao evento que fica em um prédio próximo e fui para o auditório onde estava acontecendo o debate OpenDocument, OpenRevolution, com a presença de Eduardo Gutentag, engenheiro senior para tecnologias web e organização de padrões da Sun, Bob Sutor, vice-presidente de padrões e open source, da IBM,e Nathaniel Borenstein, da divisão da IBM Lotus, além do Charles-H. Schulz, lider do Projeto de Idioma Nativo, do OpenOffice.org.
A discussão foi dirigida, como em qualquer debate, com o debate de o porque de usar o ODF, vantagens, aplicações, etc.. Particularmente, achei meio vazio o debate, achando que faltou um “advogado do diabo” (ou o próprio) para fazer uma oposição. Quem teve oportunidade de participar do debate na Câmara dos Deputados sobre Formatos Digitais Textuais, com a participação da Microsoft, Adobe, Gartner Group e BrOffice.org, entende o que digo. Se não teve a chance de participar, pode acompanhar os arquivos de audio, que estão na página4 do BrOffice.org.
Após o debate, deu-se início ao ciclo de palestras do dia. A minha apresentação seria no próximo horário, então pedi o notebook do Jesus Currius emprestado para fazer minha apresentação, e revisei-a, enquanto assistia uma palestra do Thorsten Bosbach, que trabalha na Sun , na parte de controle de qualidade, desenvolvendo testes automatizados para o StarOffice. Realmente, algo que precisamos olhar mais de perto.
E após a sua apresentação, foi finalmente a minha, na sala Turing. Antes de mim, naquela sala, estava acontecendo a apresentação do caso de sucesso na Índia. A sala estava consideravelmente cheia. Quando instalei o notebook para começar a minha palestra, o wi-fi simplesmente pifou e fiquei sem acessar todas as páginas q já havia aberto. Por sorte, lembrei da Lei de Murphy, e baixei algumas coisas na máquina. Estava realmente nervoso, pois tinha esperança de ter uma ajuda na “tradução online”, e no fim, foi em inglês (ou algo próximo disso) mesmo. Devido ao meu nervosismo, não conseguia ver as pessoas presentes. Foi somente depois, vendo as fotos do evento, que vi o meu público, vendo pessoas como Louis Suarez-Potts, Zaheda Bhorat, Erwin Tenhumberg, Rafaella Braconni, entre outras figuras importantes a nível de comunidade, lá presentes. Lembro da Rafaella, ao fundo, mas do demais, não.
No final, foi muito bom mostrar as coisas que temos e ver o interesse das pessoas. Lembro que quando falei do Rau-tu5 o pessoal da Sun disparou a anotar, ou quando falei do trabalho do verificador ortográfico6 ou Cogroo7. Depois, mais calmo, veio a avalanche de coisas que não falei. Quem sabe no próximo ano?...
Após o almoço, foi a vez da multimídia no OpenOffice.org. Para os usuários não windows, é fatal a questão de suporte parcial (e praticamente inviável) à multimídia. Adicionar filmes, música, ou outra coisa realmente é muito difícil, precisando de frameworks como o JMF – Java Multimedia Framework – para poder ter um vídeo dentro de uma apresentação, por exemplo. Além do JMF, existe uma alternativa da IBM, mas ambas proprietárias e nada fáceis de usar. Desta forma, iniciou-se um trabalho, que ao meu parecer é decisivo, usando o GStreamer8. A evolução da questão de vídeo e stream no OpenOffice.org é uma das lacunas que precisam ser preenchidas para o avanço da ferramenta.
Na continuação, Fridrich Strba, um dos desenvolvedores mais heterogêneo que conheço, pois participa, além do OpenOffice.org, dos projetos AbiWord, Koffice, ooo-build, entre outros. Em sua palestra, Fridrich falou sobre as questões de manter determinados trabalhos, como o caso do dele, no filtro gráfico do WordPerfect. No fim, o assunto avançou bastante sobre a questão do desenvolvimento em si, e de bons exemplos de iniciativa, como o Summer of Code, do Google. Concluída as perguntas, fomos para um intervalo antes das palestras finais.
No intervalo, foi organizado rapidamente uma festa de assinaturas de chaves, espaço onde os desenvolvedores trocam chaves GPGs, fazem as devidas verificações e lembretes para quando retornar, enviar as chaves. Geralmente, a regra sugere dois documentos recentes, com fotos. Foi estranho ter que apresentar passaporte e carteira de habilitação, enquanto que eles só apresentaram carteira de identidade. Com a carteira de identidade européia, em si, já serve para fazer trânsito livre entre os países, sem a necessidade do passaporte.
Para fechar, escolhi a palestra do Rene Engelhard, um dos mantenedores do pacote OpenOffice.org no Debian e desenvolvedor Suse, falou justamente sobre a questão do OpenOffice.org dentro das distribuições, e das dificuldades de se manter algumas coisas dentro da árvore principal (CVS) do projeto, justamente por causa das diferenças das linhas de desenvolvimento da comunidade e da Sun. O mais interessante foi, ao final, ele e Martin Hollmichel, engenheiro responsável pelo ambiente de desenvolvimento da Sun, discutindo os dois lados do problema. No fim, ficou o convite do Rene ir à sede em Hamburgo, Alemanha, para discutir melhor estes pontos. É importante ver resoluções deste tipo, pois na discussão o foco foi tentar achar meios de atender a todas as partes e não defender uma única posição. Ações como estas fazem a diferença em projetos como o nosso. Mas foi interessante ver que problemas com a Sun não são uma exclusividade nossa. ;-)
No encerramento, no auditório, Louis fez seu discurso, seguido pelos agradecimentos à equipe francesa pela organização e empenho, e todos os desenvolvedores se despedindo. Depois, foi o caminho para o aeroporto e voltar para casa.
No geral, quando me perguntam como foi a viagem ou o evento, respondo que além da oportunidade de ter tido um intensivo em inglês, da oportunidade de conhecer outro país, foi uma grata surpresa ver que não fui para aprender e sim, que temos muita coisa a mostrar e contribuir para a comunidade internacional, e muito mais coisas que podemos melhorar aqui dentro. Foi gratificante não só escutar, mas constatar as palavras do Louis quando ele disse que a comunidade brasileira é uma das mais fortes do mundo, e que nosso trabalho, tanto na comunidade, quanto em nossa ONG, faz a diferença.
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